Madri. Paris. Londres. Berlim. Lisboa. Cinco dos principais destinos turísticos na Europa. E mais: Munique, Hamburgo, Roterdã, Turim e Glasgow. Em 50 dias, o jornalista Leandro Vignoli, gaúcho de Canoas, acompanhou os jogos de treze clubes especiais, em 10 cidades, de 8 países europeus. O foco não eram os grandes como Real Madrid, PSG, Arsenal, Chelsea, Bayern ou Juve. Mas sim aqueles que lutam para sobreviver, “À Sombra de Gigantes – Uma Viagem ao Coração das Mais Famosas Pequenas Torcidas do Futebol Europeu” – título e subtítulo do livro recém-lançado por Vignoli.

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É interessante, bem escrito e tem muita informação. Os ídolos, a história dos clubes, os estádios, os bairros, o perfil dos torcedores, os rivais. Cada capítulo, um time: St. Pauli, Union Berlin, Munique 1860, Fulham, Millwall, Leyton Orient, Queen’s Park (Escócia), Sparta Rotterdam, Rayo Vallecano, Espanyol, Belenenses, Torino e Red Star, de Paris. Ou seja, a viagem de Leandro Vignoli (com muitas horas de ônibus, hospedagem em hostel e dale fast food, pra economizar) é a trip dos sonhos de quem usa a hashtag “Ódio Eterno ao Futebol Moderno” e qualquer louco por futebol alternativo. Com uma pergunta em mente. Por quê? Por que torcer para times que nunca ganham títulos, ou não ganham há muito tempo?

“Ludere causa ludendi”. Jogar pela vontade de jogar. É o lema do Queen’s Park, de Glasgow, onde o jornalista chegou depois de quase 10 horas de ônibus saindo de Londres. Hoje com um uniforme que motivou o apelido de spiders, o dono do Hampden Park disputa somente com atletas amadores a terceirona escocesa, que é profissional. Pra sacar a importância do clube no esporte que amamos, foi do Queen’s Park a ideia do primeiro amistoso entre seleções. E o uniforme que o clube usava em 1872 inspirou a camisa da Escócia contra a Inglaterra -e pra sempre.

“Ganhar a qualquer custo não é o mais importante”, para o St. Pauli, de Hamburgo, que atualmente milita na segunda divisão da Bundesliga. O ativismo do clube da bandeira pirata, de seus diretores e torcedores, ganhou um dos 13 capítulos, assim como o Union Berlin, também na 2. Bundesliga. A torcida do Union Berlin odeia o Dínamo de Berlim (agora algumas divisões abaixo), ainda identificado como “time do governo” dos tempos da Alemanha Oriental. O Dínamo era o time da Stasi, a polícia política (viu o filme A Vida dos Outros?). Oficialmente, a diretoria do Union rejeita a bandeira do clube que era anti-Stasi.

Lutar contra o neonazismo, contra o racismo, a homofobia e outros preconceitos é uma bandeira também do Rayo Vallecano e mais precisamente de sua torcida.  Em  À Sombra de Gigantes, Leandro Vignolli anota que Vallecas, o bairro mais operário de Madri, tinha taxa de desemprego de 12,5% em 2016. A melhor posição do Rayo em La Liga foi um 8º lugar com o ousado Paco Jémez de treinador, na temporada 12-13. Desde 2016-17, infelizmente o querido matagigantes está na segundona.

Outro clube à esquerda retratado por Vignoli é o Red Star, o mais antigo de Paris, fundado por ninguém menos que Jules Rimet -o homem que criou a Copa do Mundo. Relata Vignoli que o estádio do clube serviu como esconderijo de armas dos que se opunham à Ocupação nazista. O médico que emprestou seu nome ao campo, Jean-Claude Bauer, fui fuzilado pelos nazis, assim como o goleiro italiano do Red Star, Rino Della Negra. Fundador da Ligue 1, o vovô do futebol parisiense está na terceirona.

Leandro Vignoli retrata um jogo no colossal e sempre lotado Santiago Bernabéu, mas de olho no visitante, o Espanyol, da Catalunha, que vive à sombra do gigantesco Barça. O autor lembra que Los pericos se orgulham de ser a ‘maravilhosa minoria’, mas observa que a média de público vem caindo (na base de 20 mil torcedores/jogo) no moderno estádio de Cornellà – El Prat, a terceira casa do clube em 20 anos (depois da demolição do mítico Sarrià, que ficava num bairro nobre de Barrcelona, o RCDE jogou no Olímpico de Montjuic até mudar para o atual, na região metropolitana, não muito longe do aeroporto El Prat).

Vignolli também foi à Allianz Arena, num jogo do Munique 1860, hoje também à sombra de um gigante, o todo poderoso Bayern, agora único dono do estádio. Segundo dados do livro de Leandro Vignoli, o 1860 tem cerca de 18.600 sócios contra os 277 mil do Bayern. Recentemente, caiu para a terceirona alemã, mas como seu cartola não quis pagar uma taxa, foi parar mais baixo ainda, o quarto andar do futebol alemão, a Regionalliga.

Outro que vem despencando (embora sem o tamanho da história do TSV 1860) é o Leyton Orient.  Os torcedores se mobilizam pra salvar o Orient, no momento na quinta divisão inglesa, dos problemas provocados por gestões (pra dizer o mínimo) infelizes.

Também na região de Londres, Vignoli fez um rolê dos sonhos de todos que gostam de futebol alternativo: o Craven Cottage, estádio retrô (e tombado) do Fulham, atualmente na segundona inglesa. Um clube simpático, que ninguém odeia, ressalta o autor. Um pouco como os Belenenses, também com um estádio retrô num dos bairros mais visitados pelos turistas de Lisboa (Belém), numa cidade dominada pelo encarnado do Benfica e pelo verde e branco do Sporting. Agora, pergunta para os torcedores mais fanáticos do Fulham ou dos Belenenses se eles gostam desse título de Mr Simpatia… certamente, terão um sentimento não muito diferente do núcleo mais duro da torcida do Juventus, da Mooca.

Bem diferente é a pecha do Millwall, cujas origens estão ligadas aos trabalhadores das extintas docas à margem do Tâmisa, aponta o livro. Fama de bons de briga, e não é à toa, amplificada por filmes e séries sobre hooligans.

Na Holanda, o Sparta Rotterdam, mais ligado à elite da cidade, joga no Het Kasteel (castelo), por onde já passaram Louis Van Gaal e Danny Blind. Sinuca de bico: o time considerado mais aristocrático -em contraposição ao Feyenoord, clube do povo de Roterdã-  está num bairro que agora recebe mais imigrantes.

O Torino, o maior dos 13 clubes, entrou por viver à sombra da toda poderosa Juventus e da memória da tragédia de Superga, que liquidou um Grande Torino.

“À Sombra de Gigantes” tem muita história boa e serve ainda como um belo manual de viagem para quem planejar uma trip parecida. Ainda tem trilha sugerida no Spotify  e dá boas dicas de documentários que podem ser assistidos no You Tube e de livros estrangeiros consultados.

Em janeiro, “À Sombra de Gigantesvai ter noites de lançamento em Porto Alegre e São Paulo.

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