“Geraldinos” em São Paulo

Publicado em 29 de abril de 2016


O horário é um só. 18h10. A sala 4 do Caixa Belas Artes não é assim um Maracanã dos cinemas. Mas os torcedores dos times cariocas que moram em São Paulo e todos os ‘futboleros’ interessados nas melhores décadas do futebol brasileiro precisam ver “Geraldinos”. Os diretores Pedro Asbeg e Renato Martins (que já tinham sido premiados por “Democracia em Preto e Branco”) levantaram a taça de melhor longa tanto na edição carioca como na paulista do festival CINEfoot, em 2015, com estes 73 minutos de barulho em homenagem ao Maraca das antigas e seus ricos personagens, os geraldinos.

A equipe do filme registrou os dez últimos jogos do velho Maraca com a geral, em 2005. Uma década depois, reencontrou no estádio lipoaspirado alguns geraldinos como o “Mister M”, “Índio”, Vovó Tricolor e Edgar, um tricolor que invadiu o gramado do Maracanã num Fla-Flu de 1982 em que o time de seu coração perdia por 3×0 e foi pedir pro Zico não marcar gol. Dois anos depois, Edgar batizaria seu filho com o nome do herói tricolor num Fla-Flu decisivo: Assis.

Emoção não falta no documentário “Geraldinos”. Sem falar no riquíssimo material de arquivo, cenas de outros filmes feitos, editados num ritmo brilhante – o som do grupo Bixiga 70 está na trilha sonora. Os depoimentos são muito bons, e o apolinho Washington Rodrigues, comentarista de rádio no Rio, dá a letra: “nem eu sei quem é o dono do Maracanã. Sei que não é meu”.

“Geraldinos” toma partido, escolhe o lado. O lado do povo. Belo doc!
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O 4º festival CINEfoot começa com o lema “Futebol é mais que um jogo”.

Facebook.com/CINEfoot
Facebook.com/CINEfoot

A bola vai rolar nas telas do CINEfoot, festival de cinema de futebol, já na quarta edição. A sessão de abertura no Rio, nesta quinta-feira, 23 de maio, 20h30, no Espaço Itaú de Cinema, da Praia de Botafogo, faz uma homenagem a Sócrates. Exibe o filme “Os Rebeldes do Futebol”, ancorado por Eric Cantona, que tem o doutor como um dos cinco personagens (veja post anterior). E ainda tem o elogiado curta de Anna Azevedo sobre o extinto setor mais popular e folclórico do Maracanã: “Geral”. “The Heart of the Stadium”, o título em inglês, ajuda quem nunca ouviu falar em geral, que está sendo banida dos estádios, digo, arenas.
O festival CINEfoot segue no Rio até terça-feira, 28 de maio, no Espaço Itaú, no CCJF (Centro Cultural Justiça Federal), Ponto Cine (em Guadalupe) e no projeto Cinemão, em Manguinhos e na Cidade de Deus (confira aqui a programação carioca, dia a dia, sala por sala, sessão por sessão). Em 6 de junho, começa a seleção paulista do CINEfoot, no Museu do Futebol e no Espaço Itaú de Cinema da rua Augusta. Em Sampa, ai até dia 11 (confira aqui a programação de São Paulo). Durante a Copa das Confederações, rola um CINEfoot extraordinário em Brasília, Belo Horizonte, Salvador, Recife e Fortaleza.

O “Mundial” de 1942 tem até cartaz oficial, no filme italiano

Tem longa-metragens como o hilário “documentário” [preste atenção nas aspas] A Copa Perdida/Il Mundial Dimenticato, curtas bacanas, trailers de novos filmes, concurso de vídeos sobre clubes objetos de paixão há 100 anos, até cópia restaurada de um clássico do cinema de futebol nacional: “Tostão, a Fera de Ouro” (que teve como trilha sonora o clássico samba “Aqui É o País do Futebol”, de Milton Nascimento e Fernando Brant). Tostão é outro dos homenageados nas noites de futebol no cinema, como os 60 anos de Zico, os centenários do clássico Botafogo x Flamengo, do título carioca de 1913 do América e de clubes como o Bonsucesso, os 80 anos do profissionalismo no futebol, os radialistas esportivos, o capitão Carlos Alberto Torres, o produtor Luiz Carlos Barreto…
Quanto custa a entrada? Nada! É de graça. Você só paga o refri, a pipoca e a camisa do seu time. Bola pro mato que é filme de campeonato. A Taça CINEfoot está em jogo para 13 filmes da Mostra Competitiva de Longa-Metragem (5 brasileiros e 8 internacionais). Participam da Mostra Competitiva de Curta-Metragem 20 filmes: 12 brasileiros e 8 internacionais. Confira os “convocados” dentro do post.
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“Memórias do Chumbo – O Futebol nos Tempos do Condor”

Memórias do Chumbo – O Futebol nos Tempos do Condor. IMAGEM : Flickr.com/photos/Cinefoot
 Flickr.com/photos/Cinefoot

Em janeiro fez 31 anos que o Uruguai organizou a Copa de Ouro, mais conhecida como Mundialito. A Copa de Oro reuniu em 1981, no estádio Centenário de Montevidéu, as seleções até então campeãs mundiais de futebol. A Celeste, dona da casa, a Alemanha, a Argentina, o Brasil, a Itália e no lugar da Inglaterra, a Holanda. O Mundialito foi organizado pelo governo militar uruguaio para promover o regime, num período de plebiscito. Está num dos quatro episódios da excelente série de Lúcio de Castro, “Memórias do Chumbo – O Futebol nos Tempos do Condor”, que a ESPN Brasil estreou no final de 2012. E foi selecionado para a mostra competitiva do festival CINEfoot, no Rio e São Paulo.

E o episódio sobre o Uruguai é um dos melhores da série. Falando em bom português, o escritor uruguaio Eduardo Galeano – que é apaixonado por futebol – diz que, ao organizar o Mundialito com fins políticos, o governo uruguaio viu o tiro sair pela culatra. Durante a final (Uruguai 2×1, sobre o Brasil de Telê), no Centenário, o povo vaiou bandas militares e gritou o refrão:

“Se va a acabar, se va a acabar, la dictadura militar”

O episódio que mostra o uso do futebol pelo poder político-militar no Uruguai ainda tem depoimentos como os de

  • Lilian Ceriberti, sequestrada pela Operação Condor, orquestração repressiva coordenada pelas ditaduras de países como Argentina, Brasil, Chile e Uruguai. Entre os torturadores de Lilian, estava (pasmem!) um ex-jogador de futebol brasileiro (Didi Pedalada);

edefensor

  • Gerardo Caetano, historiador, ex-jogador do Defensor Sporting, que conta como os jogos do Defensor viraram uma espécie de catalisadores dos protestos políticos, incluindo até volta olímpica pela esquerda. Parênteses: no mínimo curioso e digno de aplauso que um país tenha entre seus intelectuais um ex-jogador como Gerardo Caetano e um fã, como Eduardo Galeano!

O episódio sobre o Brasil fala, por exemplo, da derrocada de João Saldanha do comando da seleção brasileira. O da Argentina, dos gritos dos torturados na ESMA enquanto a torcida vibrava com as vitórias da seleção alviceleste no Monumental de Nuñez, na Copa de 78. E o do Chile, do centro de prisão e tortura que virou o estádio Nacional e da coragem do jogador Carlos Caszely, que se recusou a apertar a mão do ditador Pinochet. E muito mais, como a omissão de cartolas dos mais poderosos do mundo do futebol.

Vale a pena ficar de olho em novas reprises. São 4 episódios. Veja o trailer aqui. O blog do Lúcio de Castro tem extenso material sobre a série.  Confira aqui as sessões de “Memórias do Chumbo” na edição carioca do CINefoot e na versão paulista do festival. Continuar lendo ““Memórias do Chumbo – O Futebol nos Tempos do Condor””